segunda-feira, dezembro 05, 2005

Recordar Francisco Sá Carneiro

0426

Hoje é dia de recordar Francisco Sá Carneiro.
Sempre foi, e ainda é, o político que mais me inspirou.
Acredito que se hoje fosse vivo tudo seria diferente.
Era um político de grande carisma, dignidade e coragem, impaciente com os males do mundo que, embora tenha demorado algum tempo para definir, com rigor, o seu posicionamento político e ideológico, já que, como se sabe, por um lado, o período da sua vida política activa foi muito curto e por outro, decorreu durante um período de acentuadas mutações - o fim do salazarismo, o marcelismo, a Revolução, a descolonização, a alteração da estrutura económica, a democratização do país - que o obrigaram a uma constante e imperiosa acção política que não lhe deixou tempo para, com distanciamento, auto-sistematizar o seu pensamento.
Pode no entanto dizer-se com segurança que se movimentava entre os modelos da doutrina social da Igreja e dos regimes escandinavos.
No entanto, começou por ser liberal (enquanto, por pouco tempo, confiou em Marcelo Caetano e acreditou que era possível fazer a "luta por dentro"), quando isso era politicamente incorrecto, e mais tarde colou-se à social-democracia nórdica, naquilo que porventura foi o grande equívoco da sua carreira política já que tentou inclusivé, embora de forma infrutifera, inscrever o PPD na Internacional Socialista.
Sá Carneiro dizia, por essa altura, que os socialistas de Soares eram comunistas e que quem defendia os valores da social democracia em Portugal era ele e o PPD.
Como gostava de dizer, desdramatizando a questão: "Cometi certamente muitos erros tácticos na minha vida política, mas tenho como certo que nunca cometi nenhum estratégico."
Após essas hesitações Sá Carneiro definiu-se como um Conservador Liberal e penso que se não tem morrido e tem continuado a sua carreira política seria hoje, justamente um conservador liberal, alguém que, nitidamente, estaria à direita no espectro partidário português.
Era um homem de grande responsabilidade e de fortes convicções para Portugal, recordo que a seguir ao 25 de Abril sempre se bateu contra a continuação da onda revolucionária, e que optou sempre por seguir o caminho da moderação, das causas reformistas e dos processos liberalizantes, no sentido de exaltar a autonomia da sociedade civil em detrimento da centralização do Estado.
A sua curta experiência como Primeiro Ministro, em que se revelou um estadista de grande envergadura, serviu para aguçar a curiosidade para o que seria capaz de fazer pelo país no futuro se, entretanto, não se tivesse transformado num mito em 4 de Dezembro de 1980.

Nota: Recomendo a visão do Especial que a RTP preparou para logo à noite sobre a Vida e Obra do grande Estadista.

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